Mas ao desviar os olhos alguma coisa na tapeçaria chamou sua atenção. Virou-se e tornou a estudá-la. Figuras que ela nunca tinha visto? Mais uma vez tudo era apenas um enxame de retalhos costurados. Então o flanco da montanha emergiu aos poucos, depois as oliveiras, e finalmente os telhados da aldeia, não mais que casebres amarelos espalhados no solo liso do vale. As figuras? Ela não conseguia encontrá-las. Até tornar a desviar os olhos. Pelo canto do olho viu-as por uma fração de segundo: duas figuras minúsculas abraçadas, mulheres de cabelos vermelhos!
Lentamente, quase cautelosamente, tornou a voltar-se para o quadro. Seu coração batia irregularmente. Sim, ali. Mas seria uma ilusão?
Atravessou o saguão até postar-se diretamente diante da tapeçaria. Estendeu a mão e tocou-a. Sim!
Cada bonequinha de pano tinha por olhos um par de minúsculos botões verdes, um nariz cuidadosamente costurado e a boca vermelha. E os cabelos, os cabelos eram de lã vermelha, enrolados em ondas e delicadamente costurados sobre os ombros alvos.
Ela ficou olhando, meio incrédula. No entanto ali estavam elas — as gêmeas! E enquanto ela estava ali parada, petrificada, o aposento começou a escurecer. A última luz escondera-se atrás do horizonte. A tapeçaria dissolvia-se, diante dos olhos dela, até tornar-se um desenho abstrato.
—(A Rainha dos Condenados)
“É preciso estar sempre embriagado. Para não sentirem o fardo incrível do tempo, que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso. Com quê? Com vinho, poesia, ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.”
Baudelaire